terça-feira, 10 de julho de 2012

Giz

"Antes o boneco, o marionete.
Sua carne de espuma, sua pele de pano,
seus ossos de madeira.
Depois, seu ar de abandono
dependurado no cabide.
Que o boneco crie sua própria estória,
gorda e torta
como sua desforme anatomia.
Para fazê-la viver
cá estamos nós, seus servidores.
É como quando se viaja
por muito tempo e para muito longe:
se fecha a casa e se cobrem os móveis
com lençóis.
O tempo escorre
e tudo cobre de poeira.
A vida dorme.
Ah, o tempo...
O tempo e tanto passa
que até as sereias envelhecem
na nossa ausência.
Mas não abandonam o velho charme.
Afinal, o amor não é
exclusividade de belos e lindos.
Entre feios e esquecidos
(às vezes mofado) o amor perdura,
solta chispas de sedução.
Na casa vazia, os fantasmas da família
cultivam zelosamente tédio e neurose.
Ora, a humanidade sem culpa
aplicadamente eterniza erros,
gerações e incomunicabilidade.
Ratos roem um passado de glórias.
Mesmo a música,
oh a música, que venha a música,
mesmo que provenha
de um coral de descontentes,
Afinal tudo é
como frágil esboço no quadro-negro:
uma mão, um trapo e...
GIZ!  Tudo apagado! "
(Alvaro Apocalypse)
Festival de Inverno de Ouro Preto 1987

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